9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 17.4.13

1. FLORESTAS QUE MATAM
2. MQUINA DE LER SONHOS

1. FLORESTAS QUE MATAM
Plantaes de pinheiros e eucaliptos no Pampa Gacho ameaam a sobrevivncia de quase mil espcies de animais e vegetais que se reproduzem exclusivamente na regio
Edson Franco

De longe, o cenrio  bonito. Fileiras de rvores altas e frondosas quebram a monotonia do relevo no Pampa Gacho. Pontilham de verde uma regio historicamente dominada por vegetao baixa e campos planos. Esse ambiente colabora com o sucesso da pecuria local desde o sculo 16, quando os jesutas levaram os primeiros rebanhos para o Sul. Essa falta de matas densas e fechadas fez muita gente acreditar que a regio abrigava pouca variedade biolgica. Recm-publicado, um levantamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mostra que mais de 2.100 espcies  990 exclusivas  fazem companhia aos bois, tropeiros e capim que do fama  regio. E  a sobrevivncia de parte dessas espcies que as florestas artificiais pem em risco.

ESPCIES INVASORAS - Gachos passam por floresta artificial cuja sombra dizima a vegetao original
 
Os nmeros apresentados na pesquisa puxam o Pampa para a frente da fila dos biomas nacionais a serem preservados. Na comparao com similares nacionais, a regio perde na variedade, mas ganha na concentrao. Ocupa 176 mil km, dos quais apenas 36% ainda esto cobertos pela vegetao original e onde esto as 2.169 espcies mapeadas pela UFRGS. No Cerrado, por exemplo, o nmero de espcies chega a 7 mil, mas elas se espalham por uma rea de 3 milhes de km. No Sul,  possvel encontrar 40 plantas diferentes convivendo em apenas 1 m. A importncia da conservao disso  to importante quanto  da Amaznia.  somente menos divulgada, diz a professora Ilsi Boldrini, que coordenou o levantamento.
 
A falta de divulgao incentivou a indstria de papel e celulose a despejar sementes pelo Pampa. Sob a sombra de eucaliptos e pinheiros, as plantas nativas foram as primeiras a perecer. Como so espcies de campo aberto, a manuteno de sua vida depende de uma oferta generosa de luz solar. Para piorar, depois que parte dessas florestas artificiais  derrubada, espcies invasoras, como o capim-annoni, tomam conta do lugar. Apesar do nome, nem o gado aprecia essa praga. Esse quadro ajuda a colocar a regio como o segundo bioma mais devastado do Pas, atrs apenas da Mata Atlntica. As florestas artificiais colaboram, mas no so as nicas vils na histria. A agricultura  o mais antigo e eficaz exterminador de espcies no Pampa. Boa parte da regio hoje ocupada pelas rvores gigantes da indstria de celulose j foi terreno sobre o qual se plantou soja ou trigo. As reas usadas j haviam sido convertidas para agricultura ou pecuria, diz Jefferson Garcia, engenheiro florestal e consultor da STCP Engenharia.

O avano das florestas artificiais  um fenmeno que une pases desenvolvidos e em desenvolvimento. Algumas matas dos Estados Unidos e do Canad foram transformadas em monocultivos, diferentes da floresta heterognea nativa, lembra Graciela de Muniz, professora de engenharia e tecnologia florestal da Universidade Federal do Paran. Pode ser um caminho sem volta. Resgatar a paisagem original  um longo exerccio de arqueologia ambiental sem garantia de recuperar toda a variedade de espcies do lugar.  esse o risco que graxains, corujas-buraqueiras, cgados-de-barbicha e outros bichos que chamam o Pampa de lar no querem correr.


2. MQUINA DE LER SONHOS
Cientistas japoneses desenvolvem mtodo para desvendar, com 60% de acerto, o que voluntrios esto vendo durante o sono
Juliana Tiraboschi

A partir do momento que Sigmund Freud (1856-1939) definiu que os sonhos ocultam os verdadeiros desejos, os psicanalistas lidam com um obstculo difcil de contornar: dependem dos relatos dos pacientes para ter acesso aos seus devaneios noturnos. Esses sonhos contados so distorcidos pela censura dos prprios narradores, o que atrasa ou inviabiliza o objetivo da anlise. A cincia acaba de dar um passo gigante para pr fim a esse intermedirio entre o mundo onrico e os psicanalistas. Liderada por Tomoyasu Horikawa, do Instituto Internacional de Pesquisa Avanada em Telecomunicaes, no Japo, uma equipe de pesquisadores desenvolveu uma maneira de adivinhar o sonho de voluntrios analisando padres de atividade neural.

O processo de desenvolvimento foi rigoroso e detalhista. Voluntrios foram submetidos a diversas sesses de sono enquanto a atividade eltrica de seus crebros era monitorada por um aparelho de eletroencefalograma (EEG). Na medida em que os pacientes comeavam a entrar em um estgio de sono, os pesquisadores visualizavam sinais sugerindo a presena de alucinaes. Ento os voluntrios eram acordados e diziam quais imagens haviam visto. Depois de coletar cerca de 200 relatos de cada paciente, os pesquisadores extraram elementos visuais que se repetiram, como rvore ou homem, e agruparam esses termos em 20 categorias.
 
Por fim, selecionaram fotos que correspondiam a cada uma delas e gravaram, usando ressonncia magntica funcional, a atividade cerebral dos participantes enquanto eles visualizavam essas imagens. Um computador processou as informaes e passou a associar padres de atividade cerebral a diferentes tipos de imagem. Os voluntrios foram submetidos a uma nova rodada de soneca, e os pesquisadores conseguiram acertar o que eles estavam visualizando em 60% das vezes.  um comeo animador, mas ainda estamos distantes de uma mquina capaz de decodificar os pensamentos de qualquer indivduo. H diferenas genticas e estruturais, alm de divergncias nas experincias de cada um, afirma o neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Crebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em entrevista  Isto.

A pesquisa japonesa tem outro mrito: comprova que os sonhos so formulados durante o sono. Na comunidade cientfica, h pesquisadores que acreditam que o sonho no existe, mas  construdo depois que a pessoa acorda e resgata imagens armazenadas. Essa pesquisa , provavelmente, a primeira demonstrao real das bases cerebrais dos sonhos, disse o neurocientista Robert Stickgold, da Universidade de Harvard, em entrevista  revista Science, onde o estudo foi publicado. No futuro, esse conhecimento pode evoluir para aplicaes prticas, como terapias contra estresse ps-traumtico por meio da anlise de pesadelos ou tcnicas para ajudar estudantes com dificuldades. E a expresso aprenda dormindo ganhar um novo significado.

